Armindo Trevisan |
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Todo artista de talento propõe-se a oferecer uma visão da realidade que, por um lado, seja acessível a qualquer pessoa e, por outro possua algo de irredutível à visão comum, estimulando as pessoas a verem na realidade algo que não viam,ou que viam indistintamente. É o que fez Cézanne ao dizer de Claude Monet, pai do impressionismo: “É um olho, mas que olho!” Marilia Fayh busca tal objetivo: por um lado, mantém-se fiel ao figurativismo, que lhe permite dialogar com o grande público. Por outro, sua visão da figura, especialmente da figura feminina,é sugestiva e até certo ponto original. Marilia não só se interessa pela dimensão coreográfica do corpo feminino, mas por algo mais sutil: sua linha sensual. Esta não se confunde com os aspectos meramente físicos, ou sexuais da mulher. A sensualidade (ou erotismo na acepção mais rica do termo) tem a ver, também, com a interioridade da mulher que se sabe amada. Em vista disso, o erotismo da representação abrange dimensões que a coreografia não inclui. |
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este ponto de vista, vale a pena deter-se em algumas das
esculturas de Marilia. Suas figuras podem estar tanto em
pé, como sentadas ou reclinadas. Podem estar em movimento,
ou imobilizadas. O que aparece nelas é uma certa
expressão, mais linear que volumétrica à
primeira vista. Notemos bem: à primeira vista,visto
que na medida em que o olhar repousa nas esculturas, percebe
que não é só a linha que provoca, mas
também a sugestão de volume da massa corporal
que, no corpo feminino, tende a forma curva, à forma
– diríamos – líquida, da água
que se desenvolve em ondulações. Para nós,
essa combinação de sugestão de mobilidade
e sugestão de volume, acariciável e aconchegante,
é uma das qualidades maiores da arte de Marilia.
Ela sintetiza instintivamente as exigências da entrega
e da criação, que o corpo feminino supõe. |
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Nalgumas
peças destaca-se o primeiro aspecto, como na escultura em
que se vê uma jovem mulher sentada, na qual é
nítido o contraste entre o seu busto esguio e suas
coxas arredondadas e voluptuosas. O contraste é sublinhado
pelos relevos do busto, que se contrapõe à
fluidez das pernas. Por vezes Marilia prefere outro tipo
de expressão, ao privilegiar a esbeltez dos corpos
que, neste caso, são submetidos a contorções
de natureza estética.
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"Clarissa" (37cm x 28cm x 23cm) |
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Ou
em outras peças com abraços de parceiros.É
possível que suas esculturas adquiram maior ressonância
afetiva quando a artista, inclusive deformando o corpo na
direção do erótico, apresenta uma harmonização
dos dois elementos. |
(21cm x 19cm x 16cm) |
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(25cm x 34cm x 30cm) |
.Observe-se à moça sentada com os braços enlaçando os joelhos, “Lilah”, uma de suas melhores criações. | ||
É interessante destacar outro aspecto da produção de Marilia: certa tendência à expressão lúdica, que confere maior leveza à sua expressão sensual. Veja-se a moça que, na palma do pé esquerdo, equilibra uma minúscula bicicleta,“Gol de Bicicleta”, tema recorrente da artista, ou a moça que se diverte, como uma atleta,fazendo girar uma roda “Pedalando”. |
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"Gol de Bicicleta" (30cm x 30cm x 20cm) |
"Pedalando" (20cm x 12cm x 15cm) |
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![]() (70cm x 70cm) |
O
artifício funciona bem, em particular porque o grácil objeto
acaba reforçando a sugestão de arredondamento das formas
femininas. Marilia, além de escultora, é pintora e gravadora. Sua obra pictórica possui características singulares, já que no caso presente a artista aborda a realidade feminina sob outro prisma, o da infância e da adolescência, com sua poesia e insipiente romantismo. A representação corporal eterna-se, sendo substituída por objetos simbólicos. Não raro, o corpo é reduzido a uma silhueta. |
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![]() (40cm x 23cm) |
....É nas litografias que sua figuração da mulher mais se aproxima da figuração escultural, como se pode verificar na litografia “ Estudo para uma escultura”. | ||